quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Em Memória



*Tenho um problema  que sempre me perseguiu e só agora começo a dar conta da sua gravidade.Eu esqueço as coisas.Não como quem esquece a carteira em casa ou o guarda-chuva.Esqueço os momentos,e às vezes, até da minha existência.Sempre fui distraído e nunca me preocupei com isso ou com as vezes que esquecia o nome dos meus amigos (mesmo aqueles que convivia diariamente) ou de algum acontecimento que contavam mas eu não havia fixado.Posso ouvir a mesma piada várias vezes e brincava com essa minha deficiência.
Certa vez,estava sentado e esqueci de respirar.Um abalo agitou meu corpo.Era meu pulmão protestando por oxigênio para me manter vivo.
Somente dei conta de que não era apenas distração quando ao preencher um cadastro em um site de compras,eu não sabia o que colocar no campo nome.Sorri para a tela,mas aos poucos uma mistura de desespero e vazio foi se apoderando da minha mente.Enquanto procurava lembrar o meu nome,brigava com minha consciência sobre o absurdo da situação.Eu ia entrando em um limbo de tristeza e vazio.Por um segundo morri,sorvi o nada.A sensação de morte tomou conta do meu não ser,afundei na escuridão da minha mente vazia e naveguei sem rumo.Não sofria,não sentia.Estava preso no revés da minha existência.
Retornei vendo o cursor piscando na minha frente,o campo nome ainda em branco.Fechei a janela,desliguei o computador e me pus em frente ao espelho.Toquei minha face como quem toca a fumaça de um cigarro,esperando que se desfaça.Via mas não compreendia.De quem era aquela face?Apaguei a luz e me deitei.A única coisa que sentia era o frio do medo que me dominava, e nessa não existência acabei adormecendo.



*Encontrei estas linhas num pedaço de papel,perdido dentro de uma gaveta.Não me lembro de tê-las escrito,mas minha letra feia e trêmula confirma ser de minha autoria.

domingo, 9 de maio de 2010

Minha Última Poesia de Amor


Ele estava na cozinha,sentado.
Admirava o corpo dela em movimento,tão vibrante,juvenil.
Tão único,conclui.
"Te amo",ele diz.
Ela vira-se para ele,senta no seu colo e o olha nos olhos.
"Te amo",sussura.
"Eu te amo muito",diz ele.
Ela sussurra em seu ouvido:"eu te amo muito também" e lhe beija demoradamente.
"Mas eu te amo muito mesmo,você entende"?Ele insiste com uma voz suplicante enquanto aperta os braços dela com energia.
Ela puxa seus cabelos com força,ele se excita.
"Mas eu a amo mais que tudo,não só seu corpo,mas sua alma,sua essência.Queria que você entendesse".
"Eu entendo",diz ela sorrindo.
"Não,ela não entede",pensa ele olhando para o rosto dela.
Falta-lhe palavras para explicar o quanto a ama.
Ele segura sua cabeça,toca de leve sua nuca e a encara.
"Eu morreria por você ,daria minha alma por uma eternidade ao seu lado".Ele aperta sua nuca com mais força.Quer que ela compreenda realmente o tamanho do seu amor por ela.
Ela não sorri mais e o olha,perturbada.
"Também te amo" ,ela diz com uma voz trêmula.
"Te amo mais do que a mim mesmo",ele fala.Seus olhos brilham e tremem alucinados.
"Eu também...",mas não consegue completar a frase.
Ela sente a faca penetrar seu peito .
O sangue escorre delicadamente pelo seu seio.
Seus olhos se encontram.
"Te amo",ele diz.
"Te amo",ela insiste...
Um fio de sangue escorre dos lábios.O derradeiro beijo.
Ele desliza os últimos centímetros da lâmina no corpo dela,que convulsiona.
As batidas do coração cessam.
Ele sente.
Ela não.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Máscara...




Desejo refletir,
Além do humano,
Do sangue,do receio e do caos.
Refletir eu mesmo,
Em você quem sabe?

Não quero ver maquiagem,
Sombra ou batom em sua face.
Quero saber do humano despido,
Invadir para além da carne.

Quero beber espasmos de tuas verdades,
Penetrar tua palavra íntima.
Retirar a máscara de tua existência,
E sorver sem culpa,
A essência de seu afeto.

domingo, 5 de outubro de 2008

O Vício em Desistir



Subia o morro.
Seus passos seguiam vacilantes,brincando com as pedras da passagem.Uma nuvem se formou no seu caminho.
Sua mulher e seu filho sorriam.Tentou segurá-los,mas desvaneceram diante de seus olhos.
O cheiro de álcool em seu corpo trazia de volta a lembrança de quem era.E ele queria esquecer tudo.Mas as pedras não deixavam,o odor do seu corpo não deixava,o som da favela não deixava.
Barulho dos infernos!Sussurrou ébrio.
Mais uma nuvem de sonhos surgiu em sua frente.Lembrou-se de quando chegara naquele pedaço de chão e que hoje se apresenta naquela favela.
Viu os animais no pasto,o gado vistoso e a grama verde.
Tudo se foi.Os animais que ocupavam aquele lugar eram outros.
Eram pretos,brancos,putas,ladrões,malandros.Alguns trabalhadores da esperança e toda sorte de gente.Os animais dantes se alimentavam melhor que aquela gente desgraçada e esquecida por Deus.
A nuvem se desfez novamente e ele viu que estava perdido no meio daquelas vielas.
Perdido.
Essa palavra saiu forte de sua boca,quase que um grito.Ele era o homem mais perdido do mundo.
...

Dezoito anos.Seu filho com certeza já seria um homem.
Ele ali,covarde,trapo de gente.Não conseguiu completar sua missão.
Com o trabalho promissor de capataz logo conseguiria trazer a mulher e o filho que nem viu vir ao mundo.
Mas fez amigos,conheceu mulheres e caiu no vício da bebida e do cigarro.
O dinheiro mal dava pra comprar sua comida.
Depois a fazenda foi acabando,todos tiveram que buscar outra coisa para fazer.
Mas ele foi ficando.Viu a favela nascer.
...

Tentou andar mais erecto.Desejava ver as horas no velho relógio de pulso.
Estava escuro,queria saber o quão tarde era.Não conseguiu enxergar.
Acabara de decidir que não beberia mais.
Iria procurar o filho e a mulher.Reparar seu erro.
Seus olhos brilhavam.
Sorriu.
Um zumbido atravessa o ar.
Um corpo desaba,inerte.Pela primeira vez,silêncio...

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

* Raison D’être



Contrações... Elas estão se tornando cada vez mais freqüentes, apesar de acreditar estar no ápice de minha saúde, parece que meu organismo não é mais o mesmo, como se recebesse estímulos estranhos, alheios a minha percepção. Toda vez que elas acontecem tento me convencer que são apenas distúrbios de ordem natural, talvez devido as variadas influências dos ambientes ao qual sou exposto, mas meu inconsciente parece me apontar para algum processo irreversível, que apenas poderia ser discernível dentro das engrenagens dos níveis superiores do próprio mecanismo evolutivo da mãe natureza.

Vivo sorrateira e solitariamente dentro da Unidade, o próprio ambiente me provem de tudo que eu preciso, os outros não me dizem respeito, e a recíproca se verifica. Parece que existe um instinto coletivo que nos faz reconhecer os ambientes os quais poderemos melhor nos adaptar; como um chamado que urge em todos nós, que não dá margem para divergências, se não existem divergências, não há necessidade para diálogo.

Mesmo com os benefícios dessa “coletividade”, sempre me indaguei sobre qual o real significado desse arranjo se não existe nenhuma empatia entre os indivíduos, como um aglomerado de entes solitários. Essa nossa interdependência me permite usufruir o que os outros podem me oferecer e vice-versa, mas nem por isso eu sei alguma coisa a mais sobre o outro e, conseqüentemente, nem de mim mesmo nesse processo.

Continuar vivendo! Essa parece ser a única meta, mas será que eu é que estou errado em ficar questionando o “status quo”? Será que eu sou o único a levantar tais questões? Bem, é difícil saber, já que todos estão presos em nosso pragmatismo. Não sei se meu pensamento tem alguma relevância. É difícil conjecturar fora de um padrão que é o único conhecido. Vez por outra sinto a necessidade de tentar transmitir este sentimento a outros, mas essa empreitada, além de estranha, não natural, seria sem sentido, uma vez que não existem quaisquer laços entre eu e outros indivíduos. Bem como muitos se vão e nunca retornam e novos sempre aparecem.

Eu nunca havia pensado sobre a minha condição antes de começar a sentir essas diferenças em meu próprio corpo. Concomitante a isso, outras questões começam a surgir. Será que a minha existência terminará em algum momento? Existe algum propósito maior? Continuar vivendo... será mesmo a única meta?

Eu quase posso perceber as respostas. Sinto algo iminente. Um vazio que eu não percebia antes, como se algo irremediável se aproximasse ao qual eu seria apenas um peão ou um mecanismo no fluxo dos acontecimentos.

Mais uma vez! Mas há algo diferente agora. Está mais intenso. Elas vinham me atingindo com mais e mais intensidade, mas nunca algo parecido com isso. Me sinto paralisado. Ao redor percebo as coisas turvas e confusas. Aos poucos vou perdendo meu senso de orientação. Uma sensação nova vem me preenchendo e não consigo mais sentir a Unidade. Parece que vou me desconectando de alguma forma. O que está acontecendo? Será que aquele acontecimento derradeiro de que meus instintos me preveniam está se aproximando?

...

Silêncio e escuridão... Por quanto tempo fiquei fora do ar? Eu ainda não me sinto eu mesmo. Não sei o que acontece ao meu redor. Há algo estranho. Que sensações são essas? Será que elas pertencem a mim mesmo? Sinto meus sentidos desvanecer. Parece que minha consciência está sendo sugada para algum lugar, ou para lugar algum.

Parece que há mais alguém e ele não está sozinho. Será que ainda sou eu mesmo?

1-Eu me percebo.

2-Eu também.

1 e 2-E nós percebemos você.

Estou desvanecendo, sinto que logo não serei mais, mas isso não é mais relevante, pois parece que eu não sou mais único. Preciso não estar mais aqui para que as coisas se renovem. Então isso na verdade não é um fim, mas apenas um reinício. Vida e morte são complementares.

...

1- ...Eu sinto minha existência. Minha intuição agora me permite entender o meu papel dentro da Unidade...

2- ...A Unidade! Agora que estou aqui começo a entender o que devo fazer...

-x-

-Puxa, professor! Viraram dois! Do balacobaco!

-Sim, meu filho. Como eu já havia explicado antes, este é o processo de divisão celular. Ou seja, é como os unicelulares se reproduzem. Tomem cuidado com o microscópio, viu gente?! Lembrem-se que a escola não tem muitos...

( *Raison D’être: Razão de Ser.Conto escrito pelos meus companheiros Marcelo Albinati e Ronaldo de Paula, que fazem Letras comigo na UFSJ )

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Reminiscências do Sentir não Sentido...



Não conseguia definir quando se conheceram.
Conversaram e sentiram uma afinidade.
Talvez o olhar,talvez a pele,talvez a impaciência dela,quem sabe a curiosidade dele.
Ela gostava de falar,ele de ouvir a sua voz suave.
Não sabiam ainda o que era ou o que estava se transformando.
Decidiram ir pelo mesmo caminho.
Pararam para observar estrelas.
Ele pisou delicadamente no All Star azul e aguardou sua reação.
Ela sorriu...
Se olharam nos olhos e por um segundo o tempo parou.
Tchau,disse ela.
Até mais,disse ele.
Cada um seguiu para uma direção.
Não se amaram,não sentiram o gosto da boca um do outro,não brigaram,não sobraram cartas nem fotos.
Ele não zangou-se com ela.
Ela não sentiu nojo dele.
E quando se vêem,sorriem e se cumprimentam.
O amor não aconteceu.
E ele nunca escreveu sobre ela.
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